quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

UM DESEJO RARO DE MATAR

O texto que segue abaixo não foi escrito por mim. É de Miguel Falabella. Texto lindíssimo que achei válido postar.
Não, não me falta inspiração. Poderia hoje escrever três textos, apenas com as emoções que me rondam superficialmente e eles seriam intensos. Mas há, nesse texto, algo que enxergo em mim.
Uma necessidade. Um encorajamento talvez.
Algo de belo e doloroso que chega a ser tátil.
Segue o texto.


UM DESEJO RARO DE MATAR


Pode-se lá matar aquilo que se amou loucamente? Como é que se assassina tudo aquilo que um dia vibrou com a intensidade da luz?
Alguém sabe me responder de que jeito? Sorrateiramente, talvez, passo a passo, com a arma nas mãos, evitando o olhar perdido daquilo que já não é, pois não tem mais sentido; ou, então violentamente, como um louco, um desvairado, lançando golpes por toda a parte, como se quisesse exterminar junto com a dor, todo o resto do mundo.
De que jeito? Como se dá fim a fantasias tão amadas e tão carinhosamente cultivadas no outrora foi nosso jardim
Não sei. Juro que não sei.

Mas sei que essas vozes não podem ficar para sempre sussurrando pela casa.
São personagens que foram criados num momento de abandono, de brincadeiras infantis redescobertas, pequenos poemas de ternura, um gracejo eterno, uma intimidade desavergonhada que tomou corpo que ganhou falas e conviveu conosco naqueles dias e que, agora, anda perdida por aí, como um cachorro doente que ninguém mais quer.
O que é que se faz alguém sabe?
Mata-se o cão. Faz-se o sacrifício. Uma injeção letal e pronto, tudo está acabado.

Mas como encontrar a veia daquilo que não tem matéria? Não se mata um cachorro brincalhão que fala coisas, e cria vozes e é só um espírito pálido, porque foi criado para dizer tudo aquilo que tínhamos vergonha de dizer. Não. Esse tipo de personagem não se pode matar.
Diz a sabedoria popular que o melhor é evitar a carnificina, evitar o banho de sangue do assassinato em série e esperar o tempo passar.
Uma personagem sem fala sem ação dramática, acaba desaparecendo na penumbra das coxias.
Desaparece por um tempo, é bem verdade.
Mas não morre,
Anda pelos cantos, cantando velhas cantigas, rindo daquele jeito, inventando vozes e volta e meia e vislumbrado, mostra o seu perfil doente, uma aparição rápida, misteriosa, mas suficiente para abrir todas as feridas outra vez.
Por isso é insuportável, faz-se necessário o assassinato e é imperativo que se descubra no peito

O DESEJO RARO DE MATAR..

Abandone de início toda ou qualquer piedade, toda ou qualquer poesia, a todo ou qualquer sentimento bom que possa lhe cruzar o peito.
Ninguém está interessado nessa sua horrenda bondade, neste momento da vida,
muito menos essas estranhas figuras que você criou e que, agora assombram as suas noites de insônia.
Não. Definitivamente, esqueça a gentileza.
Não se mata docemente, nesses casos. Apanhe um pedaço de pau, uma faca qualquer à deriva, qualquer instrumento pesado e saia golpeando esses animais que já não tem mais lugar na sua vida. Eles vão implorar para viver, afinal não pediram para existir, não pediram para ver a luz e, com muita lógica, acham absurdo esse seu gesto impensado. Mas não dê ouvidos às súplicas dos moribundos.
Acabe com um por um.
Destrua todo e qualquer vestígio deste passado.
Assim deve ser feito.

Depois, quando o cheiro de sangue invadir a noite e nada mais se escutar a não ser a música das estrelas, limpe tudo cuidadosamente, como o mais perfeito dos criminosos.
Atire fora os restos, os panos sujos, a arma do crime, tudo, tudo o que ainda possa trazer alguma lembrança desta noite. Se você chegou até aí, então já sabe que não há mais volta. O jeito é olhar para o futuro, se é que existe futuro, após semelhante assassinato.

Não se incomode com o vazio. É natural nesses casos que um vazio horrível roube o ar do seu peito e se aloje no lugar das entranhas. Mas o vazio não é dor e aqueles que já viveram com a dor sabem bem o alívio que é libertar-se dela. Antes o vazio. Antes o nada.
Alimente-se. Olhe para o Sol, ainda que a sua luz seja dolorosa. Agarre-se a vida com o desgosto dos desesperados, mais não desista.
Não vale a pena, acredite.
é natural que nada mais seja como antes, após o crime, mas nada seria como antes de qualquer maneira.
Uma vez você tenha entendido isso, espere. Limpe o sangue das mãos e espere.

Pouco a pouco, algo acontece. Um leve tremor, um roçar de asas, um gemido ao longe, a queda de uma gota de água, sei lá. Mas algo começa acontecer dentro de você e o seu coração que é exatamente igual ao meu e igual ao de todas as criaturas sobre a terra, uma devastada cauda de lagartixa, inicia o movimento inexorável de reconstrução.
E então você deixa de torcer as mãos, esquece de seu passado criminosos e volta a escutar a poesia dos dias que correm. Porque o seu instinto sabe que o fim que era dor e se tornou vazio e se tornou nada, vai romper por fim o casulo do passado e estender sob um novo sol suas
ASAS DE ESPERANÇA....

Nenhum comentário: